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Não é o tempo ou a experiência, gémeos que escolheram viver como vizinhos, que nos preparam para um filme como Under The Volcano (1984), antepenúltima realização de John Huston. Porque nada nos prepara para a morte. Fora do jogo da ilusão, é claro.
Não podemos habitar a morte, pois é o consumar que tudo elimina, e os genes sabem-no bem. Não nos podemos vestir para a morte, alguém terá de o fazer por nós. Contemplar o fim dos fins é algo que nem ao poeta é permitido, apesar de o próprio, na vertigem criativa, o julgar possível em certas circunstâncias. Mas sempre imerso na ilusão, dadas as voltas que se tenham querido dar, até à tontura, até à demência (armadilha, como se não bastasse – ao louco, aparentemente, tudo pode ser dado a contemplar, mas é como se nada lhe fosse verdadeiramente concedido, nem a efectiva possibilidade de ver, biologia em cima da mesa). Ver através de uma parede de chumbo, mesmo se coberta por um lençol branco capaz de reflectir todas as cores? Não, obrigado!
Mas não é isto o cinema? Claro que sim, derradeira máquina de travestismo – armadilha vezes dois, uma vez que apenas ao sóbrio se dirige enquanto obra. Mecanismo de tortura. Mecanismo disfuncional, por nunca ligar à terra – como se nos fosse atirando quantidades de areia para os olhos, e quando os fôssemos esfregar nada pudéssemos sentir senão a ausência, até do incómodo. Ou seja, é absoluto: da morte não se sai e a morte não se vislumbra.
No entanto, e se por uma vez assim fosse, se por um breve instante se conseguisse vislumbrar? Pois, e finalmente chegámos (regressámos) a Under The Volcano… Albert Finney é o sujeito, único sujeito viável, e John Huston a fonte do (que é) inconcebível mas necessário.
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