Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Neon Demon 2:

por slade, em 03.11.17

Resposta em modo post aos comentários do R. e do F., que obrigam a exigência máxima:

(Quanto às durações e aos planos utilizados na sequência de necrofilia, não vejo nada que me impressione negativamente – pertencem à natureza do filme. E a saliva dos beijos é tudo menos simulacro. Quando dizes que o corte para Jesse é contraproducente, ou seja, desnecessário, eu arrisco dizer que é o que tem de ser. Se há coisa que irrita o analista pós-revolução industrial, é quando se goza / joga abertamente com a segurança da observação (não só no sentido de não haver coordenadas disponíveis, mas, mais ainda, quando estas existem e indicam um ponto errado – o que, esclareça-se, só pode ser interessante se for acto deliberado; serve a arte sob certas condições, nunca a ciência). Porque a verdade é que já vamos predispostos para o que está de acordo com o modelo correcto (racional e caucionado por décadas de boa análise). Sim, é óbvio que não se deve mostrar demais, que não era preciso reforçar o nexo de causalidade com a cena anterior, tudo isso. Mas isso não é o filme (The Neon Demon), melhor, seria fugir ao filme.

Este é um filme que não vive de acontecimentos objectiváveis (os – acontecimentos - que tem nem sempre nos dão margem de manobra - reconhecimento), não vive de espaços pré-definidos criados para o / esse efeito, é como se fosse decorrendo sem a devida legenda (subentendida, é claro), sem oferecer um número de pistas suficientes

(também não sabemos se a orgia contada em Persona aconteceu realmente, mas aconteceu, pois construiu para a personagem que vemos a contar, e tal basta).

Do tipo, isto acontece realmente, isto é sonhado, isto não é. Acontece e não acontece – ou terá acontecido –, em simultâneo. Sem estratificação. Nesse sentido, um cineasta próximo de Refn é Oliver Stone, se bem que com as devidas diferenças: Oliver Stone é retórico, Refn é pictórico.

Dizes que devíamos ficar algum tempo com Ruby para que a imaginação possa trabalhar, eu falo em emoção contagiante. As sequências são belas e são únicas e são, até certo ponto, de facto, não relacionáveis umas com as outras. Mas também são: é na troca de planos entre Ruby e Jesse, durante a sequência da necrofilia, que vemos erguer-se o potencial, antes contido, envergonhado, de Jesse

(é um atalho que pode confundir, pois não sabemos quem pensa em quem, ou sequer se alguém está a pensar em alguém, e nesse caso para que serve? – E depois?),

que assim, na sequência seguinte, pode finalmente expor-se, para finalmente ir ao encontro do seu destino. É a imagem ao serviço de si própria? Tudo, na aparência, tão terrivelmente errado, e alguns de nós sem nos preocuparmos, perfeitamente integrados. A emoção abalou a razão. O que me devia ter abalado, mas não abalou. É a técnica dos telediscos – mais uma razão para me sentir abalado, e, ainda assim, não.

O autor constrói-se (ou desconstrói-se) perante o nosso olhar numa odisseia de desconsolo e horror e fascínio e auto-satisfação (ou sem contradição ou abençoada contradição, não simplesmente contradição) sem forma concreta nem conteúdo tornado objectivo. Quem sabe se o tudo que é o nada, de que ele tanto fala na entrevista ao James Franco, quem sabe se sem saber do que estava a falar…

Se quer que amemos odiá-lo ou que odiemos amá-lo, de mim não leva nada!

Este é um filme feito para o nosso desprezo, que ousaremos não desprezar (razões para detestar há de sobra, e quase todas fundadas na boa análise), jogando / gozando, quem sabe, também abertamente com a observação. Alguns filmes servem para isso. A mim, devo dizer, não sei ainda para que me serviu, mas sei que não se quer ir embora, bendita assombração.)

-

Algo muito parecido:

 

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:53



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D