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De uma belíssima selecção de filmes sobre a presença do índio, em relação à qual nada deveria haver a acrescentar, foi, no entanto, dito o seguinte:
Ou então, por se ter visto o Walter Hill lá no meio [Geronimo: An American Legend (1993)], colocar em qualquer parte algo que mostre o índio que remanesce, o colono resistente à civilização US of A. Falo de Southern Comfort (1981), do mesmo Walter Hill.
O Índio, cavaleiro solitário ou em tribo, tal como nos habituámos a ver os masterizados nativos, no fundo reminiscência de uma ideia puramente ocidental: o desejo secreto de não pertença, índios antes dos índios, e quem sabe se antes dos índios da tal Índia – para onde todos os mares levavam de uma forma ou de outra (ou porque levavam ou porque deveriam levar).
Sucessão de erros, claro está; erros a remeter para o desígnio de um sonho e, contudo, a redundar (exclusivamente) na morte como desígnio. Os índios do 'meio físico América', os que apetece chamar verdadeiros e não meramente autóctones, pois também, enfim, americanos (senhores daquela terra em tempos idos, americanos antes de Vespúcio), não tinham hipótese, pois não havia referência onde pudessem encaixar (não eram sequer os outros por antítese a nós – a América é um conceito ocidental europeu, que o seu índio desconhecia, e para o ocidental europeu de gema um lugar que não deveria estar ali, um erro por natureza).
Mas desviamo-nos também nós – No fundo, quando falamos do outro índio americano (e que melhor exemplo do que os Cajuns dos pântanos da Louisiana, descendentes dos Acadianos de uma região mais a norte e mais fria), falamos de uma fuga que remete para o regresso impossível a casa. Regresso que não se deseja, e que por não se desejar não pode deixar de ser invocado como razão para prosseguir. E vai sendo gradualmente esquecido, até que cessa a marcha e passado algum tempo nada mais resta do que a memória inconsciente e originária, a memória das cavernas. Sendo que estes índios, por serem o outro que há em nós, são bem mais temíveis…e não tão fáceis de fazer desaparecer.
Ainda quanto a Southern Comfort, em resumo e na sequência do que foi dito, não seria de bom-tom deixar de notar a dupla ironia: é o outro que em nós habita que nos assusta e derrota, e as partes digladiam-se numa terra que não só não lhes pertence, como é um equívoco na essência.
É óbvio que não vinga o verdadeiro índio. Não pode fazê-lo, está fora do seu alcance. Esse filme, se de um filme precisamos, é The Shining, de Stanley Kubrick (não por acaso, o primeiro da lista mencionada no início).
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