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GÉNESIS – Sebastião Salgado:

por slade, em 12.05.15

- 02.05.2015 -

[Um prelúdio. Impressões rápidas, não raras vezes orbiculares, consoante a disposição do momento e consequentes mudanças de rumo, acerca de uma exposição fotográfica. Os filmes e livros adquiridos que se lhe seguiram. E ainda sobre uma doce e (naquele instante) inesperada representação teatral.]

 

O dia começa chuvoso, por acaso é dia da Mãe. Duas forças na mesma dimensão espacial; e contudo dissemelhante potencial de atracção e repulsão, o que, acredito, torna o impacto irresistível. Faço-lhes, portanto, a vontade… Quase sempre, pois da chuva fujo quando as circunstâncias o permitem. Hoje não é o caso.
Penso no seguinte, para destruir um outro pensamento pela raiz: ‘Repito-me, muito, demasiado. É como se vivesse num circuito fechado – Sempre foi o meu mal.’

 

Sinto-me privilegiado e, ao mesmo tempo, pouco digno. No entanto, como estou longe, penso no que quero e como quero. Um luxo que, desde que devidamente disciplinado (por norma, após cinco minutos de modorra existencial), tenho por hábito aproveitar.
… Ninguém na porta de entrada. Um tipo de aspecto jovem à espera que chegue gente. Chegamos nós e o rapaz sorri. Sorrimos de volta, mas por razões distintas: estamos expectantes! Não nos apetece fingir indiferença – não somos nem nunca fomos pessoas desse género.

Compro o caderno que alimentarei com o anterior e com as notas da exposição (e/ou outras). Primeira batota: reflicto antes de escrever e sobre o que vou escrever como introdução. Nesse momento, estou definitivamente entregue a mim próprio. Em breve, o acesso ao escape essencial através das imagens. Os que escrevem, todos ou praticamente todos, é dessa forma que constroem os seus mundos: utilizando escapes. Especialmente quando estão durante demasiado tempo entregues a si próprios.

… Sem mais perdas de tempo:

Um livro cujo preço é proporcional ao tamanho – ambos fora de alcance.

Tribo Kurowai, Papua Ocidental, Indonésia. Longe de Jacarta, a única Indonésia que nos é oferecida com regularidade. Constroem as habitações geralmente entre 6 e 25 metros acima do solo. O que tanto temem ao nível terreno? Ou não é temor e é, antes, um desejo tremendo, ao ponto de se tornar insuportável caso não cumprido, de estar ao nível dos seus deuses (presumindo que, tal como 98,76% da humanidade, não podem deixar de os ter)?
Um dos membros da tribo tem nas pernas lacerações impressionantes, como se esculpidas na pele. E não, não é horrível, é integração na natureza. Integração na forma possível.

Tal como as focas, que observo com cuidado; estão encastradas na rocha. Amestradas figuras para o fotógrafo (sempre perscrutador). Nas Galápagos…

Bocas, bocas inacreditavelmente expostas, abertas para lá das possibilidades – simbólicas, pois os seus lábios deformados circundam alegorias desenhadas num material que não consigo identificar, mas faz recordar o sílex de tempos imemoriais (refiro-me às aulas de História do sétimo grau, ano domini: 1987). O material é, evidentemente, circular, semelhante a um prato.

Nevoeiros e mais nevoeiros; uns africanos, outros no extremo-sul do planeta.

Casas lá em cima, no topo das árvores, como ninhos. Dos deuses nem sinal.

Grupos: Pessoas misturadas com animais. Parecem um e não muitos. Não se distinguem por espécie.
Os olhares são humanos – todos eles. E também próximos, muito próximos. Estão a olhar para aqui. Hora de ir embora.

Mulheres muito belas e nada sexuais.

Embondeiros ou árvores baobá, em Madagáscar, formam ‘ilhas cogumelo’. E um ‘órgão de tubos’, basáltico, também em Madagáscar, arquipélago de Mitsio.

Tempestade ao longe! Não sei onde, não estou perto do quadro, mas parece-me, logo a esse olhar fugaz, uma imagem extraordinária. Quando me aproximo, e o olhar se estende no tempo, reparo que é também sôfrega…

Olhos de Lémure: sempre abertos, enormemente; nossos e também inteligentes. E tristes, pelo que subitamente reconhecíveis.

Ainda em Madagáscar: Dizem-me que observo morcegos, mas só consigo pensar em raposas voadoras…

Árvore que tanto forçou, que obrigou que a rocha se reconstruísse em volta dos seus ramos.

Bolbo cerebrado e medonho! Não fálico, apesar de um olhar primário ter a necessidade de o ver desse modo.

Caverna Catedral (???)

Mais embondeiros; a perder de vista. Viver em igualdade de circunstâncias…

Bancos de areia: Jogo de crianças. Plasticina…

Ainda a Caverna Catedral. Mostram-me, através de indicações precisas (é para isso que servem os amigos), que não é possível discernir o interior do exterior... Talvez pelos tons – Penso mas não digo.

Cauda de baleia a ocupar todo o mundo disponível! Na verdade, mundo total. Como as asas da gaivota na imagem que vem logo após.

A foca (?) resolveu zangar-se… Leio, e afinal é um leão-marinho. Erro honesto (porque embevecido pela memória e pela força da imagem).

Há por aqui uma nuvem que parece imaculada… Estranhei e não devia estranhar! Agora, nada a fazer…

Ilha Siberut, Indonésia; construção de utensílios no vazio…

Nova-Guiné: os Homens-Lama.

Olhar extraterrestre! Homens-Huli; ainda na Nova Guiné.

Mudança abrupta de registo: glaciares polarizados. Dizem-me que não é assim.

Insisto: agora rios polarizados! Efeito de lava… Não obtenho resposta; está suficientemente afastado…

De volta aos brancos de gelo. Sinto-me em casa (!?)

Alaska: o fogo que escorre; e não é fogo, apenas parece… Vejo o que não existe?

Um rosto de vulcão! Repito: um rosto de vulcão! Quem, quem, quem (???): Jabba, the Hutt…

Evos esmagados na rocha, com as nuvens de tempestade à espreita.

E se fosse possível prever através de um modelo matemático o efeito estético da morte de uma árvore? Nós e ramos envelhecidos. Contorções… Seria como o que tenho à minha frente.

Queria ver formas nas nuvens. Ao meu lado há quem facilmente as descubra. Eu não…apenas as vejo na terra enrugada.

Nenats (esquimós) da Sibéria (?!) O nome é extraordinário… Confesso que não sabia da existência de esquimós na Rússia. Pela primeira vez sorrio abertamente. Continuo a sentir fascínio pela descoberta…O miúdo preso no interior.

Gelo rasgado? Não, são formas humanas e animais que não reconheço em debandada…

Pantanal: A onça-pintada de olho firme na nossa direcção – Memória de uma pantera que antes foi a Nastassja Kinski.

Fronteira Brasil-Venezuela: montanhas do Imeri. Pico da Neblina, ponto mais elevado do Brasil (2.994 metros).

Angel Falls, Venezuela: 979 metros em queda-livre…

Alto Xingu, Mato-Grosso, Lagoa Piyulga: sortilégio.

Os banhos dos Zo’é: fanáticos da limpeza. Brasil.

Zo’é, também caçadores de enorme plasticidade. Não sei se eficientes.

Uma mulher da tribo Zo’é: pé arrastado, o negro dos pelos púbicos, mas não espesso, não conquistador; suave, moderno, lúbrico…

Não vejo chuva numa certa imagem, e sinto-lhe a falta.

As águas dos braços do rio como um espelho quebrado! As 350 ilhas florestais do rio Negro, com as nuvens ao alto. 80 Km a nordeste de Manaus.

O mais devaneante dos icebergues – Metade mágico, metade como se feito pela mão do homem (é claro que não; mas, por outro lado, como não?). Castelo de um feiticeiro perdido…

Horas passaram. Olho com atenção para a série de postais que comprei antes de entrar na exposição (e por esquecimento não referi antes). O que me predispus a sentir retorna, mas como se distendido. Se de música se tratasse, por exemplo um disco escutado pela segunda vez, com maior clareza mas com o volume mais baixo.

Dentro e fora…

Um homem praticamente nu sobe a uma árvore. A árvore está tombada, formando uma diagonal. O homem fixo no tronco, sensivelmente a meio deste. Juntos, homem e árvore, formam o primeiro plano. Para lá desse imediato em destaque não se consegue ver nada, todo o espaço coberto por fumo ou névoa. Se é fumo parece névoa. Se é névoa, de tão densa, ou sob a sua alçada não se consegue respirar ou, então, se ganha como que uma nova pele. Partindo do princípio que é névoa, rapidamente me apercebo de quão absurda é a primeira hipótese, claro que se pode respirar, pelo que quero experimentar a nova pele, uma pele com textura do algodão doce…
Entretanto esqueci o homem, pendurado na árvore. Não se moveu. Para onde haveria de ir?

Uma cabeça de leão entre plantas que vejo como dentes-de-leão. Talvez exagere na semelhança. E por razões meramente estilísticas. Deplorável!

Agora sim, com toda a certeza, dentes-de-leão; empurram a água do lago, e é como se a sua força conseguisse enrugar a linha de água…

Dois homens de pé numa canoa atravessam o lago (quase de certeza outro lago – não me aproximo o suficiente). Não consigo perceber se é noite, e vejo o luar, ou se acontece durante o dia, e vejo um sol frágil e em breve caído por trás das nuvens. A imagem é assim tão misteriosa.

Um animal com dois cornos enormes, tremendos, entortados, ambos a apontar na mesma direcção; estranha forma tão absurdamente precisa. Ao lado do animal, um homem bem menos imponente. Outros homens estão mais afastados. Animal e homens com aspecto gélido. Os homens: respeitáveis. Talvez os inveje.

Mais bocas enormes, redondas e impensáveis. Sim, definitivamente simbólicas e tudo menos belas. Não em vida; e é assim que os observo, aos homens das bocas inimagináveis: como vivos… As bocas são como os olhos, se não forem belas, é como se o quadro do rosto não pudesse subsistir e perdesse todo o sentido. Agora que já não estou tão impressionado posso finalmente perceber (e aceitar) o que sinto no que vejo.

Raios de sol sobre a floresta. As copas das árvores em forma de cogumelos parecem representações artísticas de explosões de estrelas, ou então deflagrações de napalm…

Renas arrastam um trenó – Como deve ser dura a vida quando se está próximo dos pontos mais remotos – A paisagem é branca e bela, mas o que prevalece é a ideia associada à dureza da vida.

Um elefante a patear na direcção do olhar-câmara, e é como se o mundo estremecesse! Quando, segundos após o primeiro olhar, olhar traiçoeiro, interiorizamos a fixidez da imagem, é como quando ouvimos o Mysteries of Love no final do Blue Velvet. Uma suspensão da violência, que aguarda uma nova oportunidade. Enquanto não volta, podemos observar a beleza do abismo sem risco de queda.

Já os pinguins parecem gostar dos extremos esbranquiçados do planeta. Ou então não tiveram alternativa.

Um bloco de gelo (ou, julgado pela aparência, um floco de neve gigantesco) ameaça abater sobre os pinguins. Estes, descontraídos como só os pinguins conseguem estar, nada notam de anormal.

Homens com olhares de loucos usam capas pontiagudas para proteger os órgãos sexuais, o que os faz parecer, para além de loucos, temíveis!
Observo longo tempo. Pergunto para que servem tais artefactos. Os homens agarram essas capas como se fossem punhais.
Habitam na Papua Ocidental. Temo pelas suas mulheres. Uma dessas mulheres observa os homens à distância. No que é dado a ver, não expressa qualquer temor, e não usa qualquer protecção suplementar. Talvez tema pelo género errado. Agora já não vejo os homens como temíveis, apenas como tolos. Nem enquanto caçadores dou por eles um tostão furado. A mulher continua a observar, lá do fundo. Não se afirma nem disso tem necessidade. Por fim compreendo e posso prosseguir.

Uma tempestade no canto da imagem. Curiosamente, o rio que corre em baixo parece-me de lava –> curiosamente, por quase todos os rios mostrados na exposição me parecerem de lava.

Vejo uma divisão do motivo da imagem exactamente a meio. Um reflexo na água. Em tempos ensinaram-me que não se devia fazer assim. Quem sabe, pode, pode quase sempre e pode quase tudo. Exagero, pois claro… Talvez o motivo da imagem não seja o reflexo na água…

Coloco mentalmente uma foto com uma pata escamada de iguana ao lado de uma outra com o rosto belo e sério de uma esquimó. Complementam-se na perfeição no olho-da-mente. Só pode querer dizer que mantenho intacto o meu olhar de cinema…

Faço por terminar no icebergue que antes referi como místico e com um impossível/possível toque humano no seu desenho e construção – Estranha fortaleza de uma qualquer rainha do gelo. Tiro de lá o feiticeiro de antes…

Cá fora. Promessa de voltar. Uma fila com mais de uma centena de pessoas… Não devo voltar. Não fumo mas apetece-me; deixei, e deixei para sempre, ainda que muitas vezes me apeteça. Nada a fazer. Rigor absoluto...
Vou comprar livros e filmes sob influência. Só então…

Filmes:
- Visitors (G. Reggio)
- Snow Piercer (Bong Joon Ho)
- As Bestas do Sul Selvagem (Benh Zeitlin)
- O Sorriso do Assassino (Henry Verneuil)
- Pietá (Kim Ki Duk)


Livros:
- Viagem Sentimental (L. Sterne)
- O Sobrinho de Rameau (Diderot)

Missão cumprida. Os filmes comprados reflectem melhor o estado de influência do que os livros. Nem sempre é assim…
Volto para casa. Penso na pequenita. Antes de partir liguei a avisar e falei com ela. Ao telefone, a seu pedido, fiz de ovelha, de porco, de gato e de sapo. De ovelha mais vezes que de porco, e de porco mais vezes que de gato e de sapo.

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publicado às 13:01


1 comentário

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De Anónimo a 13.05.2015 às 09:16

também já se via o filme, do filho, por cá... ;)

e experimenta o óinc do burro porque quando tentei, acho que não sabia e tem piada, esse.

*
S

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