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Ludwig (1973), Luchino Visconti

por slade, em 26.06.25

Ludwig II, o rei louco da Baviera.

O homem dos castelos altos (com a permissão de Philip K.). Palácios é a palavra certa, mas perdia-se o gozo.

Fogo-fátuo de longa duração e movimento intermitente, no meio do pântano onde se guardam as carcaças apodrecidas dos sonhos que ficaram pelo caminho. Longe da vista.

Longe da vista? Gases cintilantes, sim, mas que escondem mistérios. Como o foguete de Oscar Wilde, criou sensação - e depois desapareceu? Nem tanto, pois ficaram os palácios.

A loucura de Ludwig deixou obras, que por sua vez representam a queda no abismo de um homem sem definição.

Na maior sumptuosidade, é claro. É cinema - É Visconti.

Uma ópera com a dimensão excessiva da vida ou a vida com a dimensão trágica da ópera? Isso fica ao critério de cada um.

Em bom rigor, não há diferença.

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publicado às 14:55

Ela, viúva de 60 anos, solitária, resignada a um trabalho medíocre - faz limpezas.

Ele, imigrante marroquino, tem menos 20 anos do que ela e mantém a força física que a função lhe exige - o inevitável tirocínio do estrangeiro pobre na construção civil.

Do nada, num café igual a tantos outros, a horas normais para ele e improváveis para ela, entre uma coca-cola e a sempiterna cerveja, apaixonam-se e decidem casar.

Claro que ninguém está disposto a aceitar tal extravagância - nem os filhos dela, nem os amigos dele; menções desonrosas para as colegas da empresa de limpezas, o dono da mercearia onde habitualmente faz compras (Ela) e a amante circunstancial (Ele).

O ato de resistência que se segue, descendente dos grandes melodramas da história do cinema, com o nome maior à cabeça (o grão-mestre Douglas Sirk), resulta numa das mais tocantes películas que me foram dadas a ver.

Vira, revira, reverbera do sentimento puro - e assim aspira a tocar os céus.

Também por linhas tortas...

O inesperado permite o amor verdadeiro. Isto é, o cumprir das mais assombrosas expetativas.

Não há amantes mais belos do que estes.

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publicado às 11:21

Wanda (1970), Barbara Loden

por slade, em 25.06.25

Wanda, escrito, dirigido e protagonizado por Barbara Loden.

Pouco sei sobre a condição feminina, ninguém me ensinou - e, perante a oportunidade, é notório que não fiz as perguntas certas.
Todavia sei o suficiente sobre cinema para dizer com segurança que o primeiro parágrafo faz parte da sua História. Porque não aconteceu assim tantas vezes. Um filme escrito, dirigido e protagonizado por uma mulher, quer dizer.

Wanda é um filme espantoso. Um dos melhores de sempre - mais uma vez, palavras a meio caminho não têm aqui lugar. E certamente o melhor dos que foram filmados em 16 mm. Tipo de película que, aliás, aceita de braços abertos. Há filmes tão granulosos que a nitidez só os prejudicaria.

Não nos conta sobre uma mulher excecional. Não nos fala de superação. Wanda existe, mas não sabe porquê. Tudo nela é induzido por fatores externos, não há um para quê que consubstancie.

É uma mulher disponível, mas não parece ser boa na cama. Não faz coisas boas pela simples razão de que não faz nada.

Podia ser uma existência livre, mas para isso teria de habitar uma sociedade próxima da ideal. O que diz mais sobre a condição humana do que sobre Wanda.

Talvez nos diga algo sobre o falhanço da evolução. Caso tal fizesse sentido.

Em todo o caso, é merecido. Tantos a fazer jus a um propósito - e só Wanda importa.

Seres que se consideram a epítome da sabedoria (2 vezes na definição da espécie). Seres sencientes que emanam diretamente do Criador, do qual são a imagem fidedigna.
Gente que fala de si própria com a melhor opinião, mas não pode estar a falar a sério.

Wanda é muito mais interessante do que parece.
Vive fora da ilusão num mundo que não sabe viver sem ela.

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publicado às 11:17

Under the Volcano (1985), John Huston

por slade, em 25.06.25

Nada nos pode preparar para esta viagem, pois nada nos prepara verdadeiramente para a morte.


Há simulações, e podemos aprender sobre elas no sopé de um qualquer vulcão, desde que extinto. Ou isso ou à distância, o que por sua vez impede a revelação, mesmo que nos ofereça uma belíssima gravura.


Não podemos habitar a morte, os genes sabem-no e disso nos dão conta dia sim dia não. Não nos podemos vestir na morte, alguém terá de o fazer por nós.

Talvez o poeta, submergido na figura de estilo - mas, lá está, é cair no simulacro; apenas não o faz, como se espera, de modo deliberado.

 

O cinema? Não - É, por definição, travestismo exponenciado.

Contudo, e se assim fosse por uma vez, pois dá-nos imagem em movimento (acreditemos na vertigem 'realista')?

Sim, desde que garantida a presença de Albert Finney. Único sujeito viável. O desempenho dos desempenhos confunde-se notável e irresistivelmente com a vida...e a morte.

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publicado às 11:13

High Life (2018), Claire Denis

por slade, em 24.06.25

Quando Joseph Conrad escreveu O Coração das Trevas não se imaginava a existência de Buracos Negros.


Golpe de sorte ou intuição de génio, uma delas, fê-lo acertar em cheio. A metáfora encontrou na ciência a sua validação, que é como quem diz, a conjugação perfeita.


Se a luz não consegue escapar de Buracos Negros, curvada por uma força gravitacional inconcebível, forçosamente a escuridão abate-se sobre o espaço periférico em termos absolutos. Se um coração já se encontrou perante a plenitude do horror (à falta de definição, podemos supô-la), então nesse instante foi inteiramente absorvido pela escuridão.

High Life: a viagem interestelar de um grupo de jovens de coração tenebroso. Foi momentâneo? Não interessa. O erro monstruoso, pelo crime cometido, tem aqui um efeito permanente. A arca espacial em que viajam é a expressão dessa falha irredimível.

Há a hipótese da fuga pelo sexo, efémera. A senhora doutora, a mais velha do grupo, que não cometeu nenhum crime que levasse a julgamento, é a sua maior fã. A maquinaria ajuda ao êxtase. É uma sequência de puro delírio lúbrico, plena de...unguento e visco.

Há também uma missão.

Um bebé muda as regras do jogo para o pai extremoso. Homem-rapaz de olhar doce e perdido.

Anos depois...
De Buraco Negro em Buraco Negro, pai e filha em busca da redenção. O pai, pelo menos.

O mínimo erro de cálculo paga-se com a morte instantânea.

A proposta científica chama-lhe esparguetização. A gravidade é tão intensa que cada milímetro, cada nanómetro conta, entre os pés e a cabeça estabelece-se uma diferença infinita, supondo o corpo a entrar reto e alinhado no horizonte de acontecimentos do Buraco Negro. Quanto menos massivo este for, pior.

Em termos simples: os pés são 'puxados' para o centro (onde está a singularidade) com muito mais força do que o resto do corpo, nanómetro a nanómetro, o que foi uma pessoa é agora um fio de átomos.

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publicado às 14:20

Easy Rider (1969), Dennis Hopper

por slade, em 24.06.25

Sonhos, a ascensão do realizador e o êxtase da trip no horizonte do desencanto (isto é, perante um belíssimo crepúsculo algures na fronteira do Texas com a Luisiana).

Sonhar implica um regime de exceção, que alguém desperto pode simular - com a vantagem de usufruir de total liberdade.
Na sequência, assim que foi possível inventou-se o cinema, lugar de todas as cores, formas e outras simulações.
Antes, muito antes, outros forjaram os mecanismos da ficção. O cinema foi o passo lógico e definitivo de uma progressão até então imparável.

Mas para quê? Para o produtor? Não, para o realizador.
E assim libertou-se das amarras do final feliz. Com o realizador, veio uma configuração do Abismo.
Para tal, havia a necessidade de um filme-matriz, com o qual os outros se pudessem comparar.

Em 1969, um mês depois da chegada do homem à Lua, veio Easy Rider. O tão ansiado projeto. E de onde menos se esperava: do âmago caótico da contracultura. Dois tipos deram-lhe vestes e rosto. Dois mais um (Jack Nicholson).
Não começaram aí - um pertencia a boas famílias, a uma das melhores, diga-se; o outro provinha do espírito rebelde de um cinema, ainda assim, clássico.
Peter Fonda e Dennis Hopper.
Easy Rider é a aventura sonhada de Billy (o mundano) e Captain America (o timoneiro). Dois espíritos livres, duas Harleys, um percurso que continha um objetivo.

Havia espaço aberto, música rock - e, no final, a queda inevitável.


A metáfora é dúbia. Os resultados nem por isso.
Sonhar a liberdade é, também, aceitar a sua impossibilidade. No fim do sonho não existe nenhum tesouro, apenas uma fatura que tem de ser paga no imediato. Com a vida, se necessário.

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publicado às 12:06

O cinematógrafo cumpriu um século de existência em 1997.
100 mais 1 - para ser rigoroso.

O que acontece quando a câmara de hoje vai em busca da imagem cinematográfica de ontem? O que vê? Pode replicar?
Que estranha e misteriosa conjugação de tempos e ocorrências nos espera? Toda a busca por uma memória é, em potência, um thriller.

No dia 8 de Novembro de 1930, o advogado Gérarld Fleury saiu de casa em busca da luz ideal para um filme sobre o lago Le Thuit. Morreu antes do dia terminar.
Havia inúmeros filmes familiares no seu arquivo...

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publicado às 11:58

A juventude perde-se, mas de um modo apaixonante.
Eis o mote do cinema de Gregg Araki.
Outro: cinema a reverter na irresponsabilidade.
Assim mesmo, logo no início do que poderia vir a ser uma carreira -->
"Um filme irresponsável de Gregg Araki"

Devaneios com potencial homicida, em viagem pela América que aprendemos a detestar. A outra que também aparece nos filmes. Por natureza, hostil para com os nossos mais queridos anti-heróis.
Sonhos (?) bons ou maus? É difícil responder, a loucura pode ser encantadora - mas é certo que acordamos com a sensação de ressaca. Uma perfeita simulação, pelo menos.

Araki quer mostrar - e mostrar desesperadamente.
Ainda bem. Queremo-lo assombrado e desinibido. Incapaz de se conter.
Mesmo que não saibamos o que fazer com ele, temos vontade de lhe dar a mão.
Sentimo-lo tão perdido, inocente e disponível como as suas personagens. Já para não falar de nós, pobres espectadores ideais.

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publicado às 11:47

Mabuse, mestre em psicologia e hipnose, foi em tempos uma figura respeitada na sociedade berlinense.
Na sombra, no entanto, era tudo menos respeitável. Vivia e sonhava o crime. Na sombra - e em continuidade.
Deu luta, até que enlouqueceu. Acabou internado compulsivamente.

10 anos depois:
No quarto do asilo psiquiátrico, de onde nunca sai, escreve com obstinação, os movimentos geridos com a qualidade do mecanismo.
Quer implementar o Reino do Crime.

Para Mabuse, o crime tem objetivo, mas não ganho imediato. Assim sendo, vem do nada (ilógico) e move-se (sempre) na direção do abismo. Serve propósitos coletivos. Cada membro obedece sem questionar.
É diversificado: queimar um quadro num museu, fazer explodir uma fábrica, assaltar um banco e deixar o dinheiro para trás, o homicídio indiscriminado...
Hoje assalta-se uma joalharia, as testemunhas permanecem vivas, contam uma história, passam a palavra. Amanhã, uma loja de conveniência, levam-se objetos sem valor e fica um rasto de sangue, não há sobreviventes.

O Reino do Crime assenta no caos, constitui-se no absurdo. Não há razão, subsiste o medo.

Mabuse pode morrer, e morre cedo no filme. Não importa, fica o manisfesto - e outro toma o seu lugar.

Um tipo qualquer -
Ou o seu médico, que por acaso lhe admirava o génio. As quatro paredes do quarto formam agora uma caixa de ressonância, independentemente do utilizador.
A roda continua a girar... O Reino do Crime é eterno.

O filme, esse, está prestes a terminar.

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publicado às 11:41

Visto em profundidade, e tão só pelo horizonte de sobrevivência, o desejo primordial da raça humana é a contemplação honesta do seu fim.
Entre o lúbrico e a elementar aspiração, tomo o partido do sonho molhado.
Pelas mesmas razões por que a hipótese do suicídio nos impede de enlouquecer.
Supor o nosso fim e sabê-lo à distância da mera vontade é o único pensamento abertamente livre que nos resta.
E o que vale para o individual, aqui também serve o coletivo. Falamos de hipóteses. Num caso, fazer; no outro, testemunhar.
Pena que o cinema nem sempre o tenha compreendido.
Soylent Green é exemplo a seguir. Conhece a causa e define regras com inteligência e precisão.

No mundo de Soylent Green há gente a mais. Nasce-se em excesso e morre-se muito devagar. Um bife ou um morango tornaram-se emanações do divino, já não são sabores, texturas, formas.
E por um feliz acaso, enfim, mais notável do que feliz, foi a última presença no ecrã do grande Edward G. Robinson, tem a melhor cena de suicídio assistido que o cinema nos legou.


Há um mistério que resiste e se deslinda na dor infinita.
Soylent Green não prevê o fim físico do seu mundo, dito e vivido na crueldade, antes arrisca na sua continuação a longo termo - pois dá-lhe a circunstância, antes em falta. O alimento.
Um problema: pode a sociedade sobreviver à perda coletiva da alma?
Não enquanto...sociedade.

Já o espectador ideal, antes recostado na cadeira fofa e ergonómica, depois de pé a apontar para o ecrã com ar perdido, pode lambuzar-se nos resquícios de um dos melhores e mais distorcidos twists da história do cinema.

Uma construção lenta, como convém ao filme que quer permanecer connosco.

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publicado às 11:05


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