Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]



Todos devíamos crescer na sombra de um Mestre.

Não pela iluminação, mas porque precisamos de um espelho onde possamos refletir a nossa tragédia. Que de resto é inevitável.

Rusty James é o irmão mais novo do herói de Tulsa, Oklahoma, o rapaz da moto, à letra, Motorcycle Boy.

O peso é brutal para tão jovens ombros, isto quando o herói sai de cena e se afasta. Sempre para longe.

 

A Califórnia é um pouco mais do que o sonho de criança.

Quando estão juntos, Motorcycle Boy é do tamanho do mundo. E ampara o irmão.

É também a figuração da melancolia.

O gancho que mantém firme o olhar do espectador ideal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 15:08

Vendeta (2017), Coralie Fargeat

por slade, em 27.06.25

A sensação é boa ou má, depende da premissa.

Quando a sensação é atmosférica, pesa sobre os ombros, mas não assim tanto. O planeta tem características amigáveis.

O olhar, necessariamente vertical, atravessa uma parede de densidade mínima, transparente e vertiginosa, e vai onde o corpo não pode ir.

Este, outrora belo, perfeito, agora trespassado por uma lança que a natureza concebeu durante décadas no calor do deserto, talvez na expetativa, finalmente cumprida; vida, morte e evolução de mão dada - E o corpo sangra, inerte, na aparência incapaz de ser, de continuar a ser.

O milagre do cinema permite uma escapatória, a que a vida, constante biológica, torce o nariz. As batidas cardíacas aumentam. O corpo arrasta-se para uma caverna.

Espaço de todos os ritos.

O cerimonial invoca deuses - o feiticeiro-mor, oculto nas sombras, oferece a solução. Mas a responsabilidade é do corpo, respaldado no milagre. O grito é total, cruza eras sobre eras.

Pode começar a vingança. E esta nada tem de ominoso.

O corpo revitalizado pertence a uma mulher. Aos homens, enfim, resta-lhes morrer.

Todos uns valentes montes de merda. Ai! - Fugiu-me a boca para a verdade. Que ardam no inferno ou noutro sítio qualquer. Da sua sorte não rezará nenhuma história para além desta.

A sensação é sensacional. Em queda livre...

Deixemos certas palavras, como 'exploração', para trás. Já não servem.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:31

Wake in Fright (1971), Ted Kotcheff

por slade, em 27.06.25

Os espectros preferem aparecer durante a noite, pelo que é natural que nos surpreendam em pleno sono.


Acordar é o passo seguinte - em pânico.


Nesse instante, digamos que se cumpre a profecia do Abismo.

Se estamos perante o conjunto multivariado de todas as possibilidades da existência, então há algo de profético na sua expressão. Só não sabemos quando nem onde.

Atribuir-lhe um espaço e um tempo é, por conseguinte, dar corpo à premonição. E, como sabemos, tal significa que as trevas podem aparecer ao virar da esquina.

Todos os grandes filmes nos deviam dizer isso, mas uns fazem-no explicitamente e muito melhor do que outros.

Acorda em pânico - e segue o teu coração (é a tua brevíssima oportunidade).

Que uma estação que leva ao Inferno se chame Bundanyabba e se situe no deserto australiano é outra das particularidades deste filme estranho e intenso e brutal.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:21

O filme de culto com o qual todos se comparam.

Digamos que a sua natureza o impele para o limiar da singularidade. Mais, obriga-o a mergulhar.

Não é imitável. Nem passível de consagração.

Vê-lo na sessão da meia-noite vestido para matar, isto é, com roupas semelhantes às usadas pelos protagonistas, é tão só a expressão de um falhanço inevitável. O que neles é como uma segunda pele, em todos os outros é uma erupção de quantidades de ridículo que não cabem em nenhum mundo, habitado ou por habitar.

Sobre este filme não se conta, é necessário ver para crer... E pela quantidade de canções, também vale escutar.

É o tipo de filme em que se pode começar a meio. Ou do fim para o princípio. Ou de olhos intermitentes a espaços de 20 segundos. Ou com uma sesta retemperadora pelo caminho, isto desde que se deixe terminar a respetiva canção - qualquer uma.

Não importa. Nada se perde.

Aliás, aqui pouco importa fora da certeza de que o filme existe.

Onde acaba a estrada da loucura? Longe, muito longe.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:09

Walkabout (1971), Nicolas Roeg

por slade, em 26.06.25

Crescer, em certa medida, implica a aceitação progressiva do esquecimento.

Algures ainda há uma memória. Mas pertence a quem? É fidedigna?

Como falamos de um filme, não importa. O mais importante é a hipótese de uma existência plena que podemos tocar com a ponta dos dedos. Não pode ser de outra maneira.

A expressão: objecto de cinema não vos faz sentido? Pois ...

Portanto, estamos perante a existência plena de alguém. Três jovens, irmã mais velha, irmão e um jovem aborígene caminham ao encontro da sobrevivência, que se transforma em ritual. Para um deles já era - as origens tendem a ser conciliadoras.

Antes, um pai decidiu disparar contra os filhos, e depois contra si próprio.

Walkabout é para o povo aborígene a expressão de uma vivência através da caminhada.

Dali, o jovem sai já um homem.

Mas vale a pena? Não há outra forma.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:58

Wolfen (1981), Michael Wadleigh

por slade, em 26.06.25

O filme policial mais extravagante dos anos 80.

Também um filme de horror - e aqui já não podemos ir tão longe; afinal, este é um género que faz da excentricidade regra.

O que o animal selvagem mais próximo do humano, o lobo, nobre solitário
(falam em alcateias, mas todas as histórias que me contaram contradizem a hipótese de grupo),
comilão irresistível - com uma predileção por avozinhas e capuchinhos vermelho-purpúreos -, poderia fazer se visse o seu ecossistema ameaçado.

Corporizar para assim cometer múltiplos homicídios e sair impune.
A vingança só é legítima quando se consegue escapar.

Se o lobo mata e o corpo que posteriormente observa o crime tem forma humana, então a inocência está garantida. Do lobo no corpo do homem, bem entendido.

Talvez o essencial se resuma a um olhar.

O plano subjetivo, e no cinema falamos do plano que simula o ato de ver, o ponto de vista da personagem, pertence ao lobo e regista a sua especificidade.

É nessa estranheza que somos levados a acreditar - porque a vivemos.

Ver é regular a temperatura obliterando a nitidez. Ver pelo olhar do outro. Outro que é (comporta-se como) um assassino em série.

O lobo - que compreende perfeitamente a fragilidade do seu adversário.

Cada vez mais humano?

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:56

Ludwig (1973), Luchino Visconti

por slade, em 26.06.25

Ludwig II, o rei louco da Baviera.

O homem dos castelos altos (com a permissão de Philip K.). Palácios é a palavra certa, mas perdia-se o gozo.

Fogo-fátuo de longa duração e movimento intermitente, no meio do pântano onde se guardam as carcaças apodrecidas dos sonhos que ficaram pelo caminho. Longe da vista.

Longe da vista? Gases cintilantes, sim, mas que escondem mistérios. Como o foguete de Oscar Wilde, criou sensação - e depois desapareceu? Nem tanto, pois ficaram os palácios.

A loucura de Ludwig deixou obras, que por sua vez representam a queda no abismo de um homem sem definição.

Na maior sumptuosidade, é claro. É cinema - É Visconti.

Uma ópera com a dimensão excessiva da vida ou a vida com a dimensão trágica da ópera? Isso fica ao critério de cada um.

Em bom rigor, não há diferença.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 14:55

Ela, viúva de 60 anos, solitária, resignada a um trabalho medíocre - faz limpezas.

Ele, imigrante marroquino, tem menos 20 anos do que ela e mantém a força física que a função lhe exige - o inevitável tirocínio do estrangeiro pobre na construção civil.

Do nada, num café igual a tantos outros, a horas normais para ele e improváveis para ela, entre uma coca-cola e a sempiterna cerveja, apaixonam-se e decidem casar.

Claro que ninguém está disposto a aceitar tal extravagância - nem os filhos dela, nem os amigos dele; menções desonrosas para as colegas da empresa de limpezas, o dono da mercearia onde habitualmente faz compras (Ela) e a amante circunstancial (Ele).

O ato de resistência que se segue, descendente dos grandes melodramas da história do cinema, com o nome maior à cabeça (o grão-mestre Douglas Sirk), resulta numa das mais tocantes películas que me foram dadas a ver.

Vira, revira, reverbera do sentimento puro - e assim aspira a tocar os céus.

Também por linhas tortas...

O inesperado permite o amor verdadeiro. Isto é, o cumprir das mais assombrosas expetativas.

Não há amantes mais belos do que estes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:21

Wanda (1970), Barbara Loden

por slade, em 25.06.25

Wanda, escrito, dirigido e protagonizado por Barbara Loden.

Pouco sei sobre a condição feminina, ninguém me ensinou - e, perante a oportunidade, é notório que não fiz as perguntas certas.
Todavia sei o suficiente sobre cinema para dizer com segurança que o primeiro parágrafo faz parte da sua História. Porque não aconteceu assim tantas vezes. Um filme escrito, dirigido e protagonizado por uma mulher, quer dizer.

Wanda é um filme espantoso. Um dos melhores de sempre - mais uma vez, palavras a meio caminho não têm aqui lugar. E certamente o melhor dos que foram filmados em 16 mm. Tipo de película que, aliás, aceita de braços abertos. Há filmes tão granulosos que a nitidez só os prejudicaria.

Não nos conta sobre uma mulher excecional. Não nos fala de superação. Wanda existe, mas não sabe porquê. Tudo nela é induzido por fatores externos, não há um para quê que consubstancie.

É uma mulher disponível, mas não parece ser boa na cama. Não faz coisas boas pela simples razão de que não faz nada.

Podia ser uma existência livre, mas para isso teria de habitar uma sociedade próxima da ideal. O que diz mais sobre a condição humana do que sobre Wanda.

Talvez nos diga algo sobre o falhanço da evolução. Caso tal fizesse sentido.

Em todo o caso, é merecido. Tantos a fazer jus a um propósito - e só Wanda importa.

Seres que se consideram a epítome da sabedoria (2 vezes na definição da espécie). Seres sencientes que emanam diretamente do Criador, do qual são a imagem fidedigna.
Gente que fala de si própria com a melhor opinião, mas não pode estar a falar a sério.

Wanda é muito mais interessante do que parece.
Vive fora da ilusão num mundo que não sabe viver sem ela.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:17

Under the Volcano (1985), John Huston

por slade, em 25.06.25

Nada nos pode preparar para esta viagem, pois nada nos prepara verdadeiramente para a morte.


Há simulações, e podemos aprender sobre elas no sopé de um qualquer vulcão, desde que extinto. Ou isso ou à distância, o que por sua vez impede a revelação, mesmo que nos ofereça uma belíssima gravura.


Não podemos habitar a morte, os genes sabem-no e disso nos dão conta dia sim dia não. Não nos podemos vestir na morte, alguém terá de o fazer por nós.

Talvez o poeta, submergido na figura de estilo - mas, lá está, é cair no simulacro; apenas não o faz, como se espera, de modo deliberado.

 

O cinema? Não - É, por definição, travestismo exponenciado.

Contudo, e se assim fosse por uma vez, pois dá-nos imagem em movimento (acreditemos na vertigem 'realista')?

Sim, desde que garantida a presença de Albert Finney. Único sujeito viável. O desempenho dos desempenhos confunde-se notável e irresistivelmente com a vida...e a morte.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado às 11:13

Pág. 1/4



Mais sobre mim

foto do autor


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.



Arquivo

  1. 2025
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2024
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2023
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2022
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2021
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2020
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2019
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2018
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2017
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2016
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2015
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2014
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2013
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D