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O bendito Poeta, cúmulo do atrevimento, afirmou certo dia que cada geração tem as referências que merece. Gozo à parte, os que fizeram 10 anos algures durante o ano de 1984 nunca se incomodaram com tal declaração. Sabem bem o que são e quem os fez. Quem lhes abriu as portas da percepção. Isto é, quem nos passou a perna pela primeira vez e, na sequência directa, nos mostrou o quanto éramos respeitados como indivíduos.
Com Indiana Jones no Templo Perdido, ou da Perdição, melhor dizendo. Local infernal por excelência onde vamos encontrar os piores pesadelos, mas também os outros elementos constitutivos, os que complementam o trabalho dos átomos, o contacto com as inevitáveis dores de crescimento; nossas, sim, pois sentimo-las na carne e nos ossos, mas que não são apenas nossas. Crescer é também aceitar a dor do mundo. A dor da humanidade sozinha no Universo e perdida na encruzilhada da autoconsciência. Num espaço de acção que vamos aprendendo a reconhecer, perante um grupo de semelhantes com o qual necessariamente partilhamos espaço, escapando para as franjas da ilusão sempre que podemos, sonhando com uma indulgência sistémica e afirmativa com o olhar possível (por definição, estrábico).
Dores de crescimento…
A rejeição viral dessas dores (ainda que haja a necessidade de olhar para esses como os que aceitam subjugar-se ou como os piores de nós) é a sede de poder / de colagem ao poder, sede que escondem de si próprios como se fosse possível levar a farsa ao infinito, sede literal – por sangue – no que respeita ao filme, e que as crianças temem como temem os monstros e os adultos fingem não compreender (porque deixaram de tentar), que atinge o paroxismo na extrema violência, na sua aceitação; ou seja, sacrossanta ironia (como fugir a sete pés da compreensão do estado violento, que em parte nos sustém, para desaguar, como miseráveis cúmplices, na absoluta barbaridade), o adormecimento perante a consciência, a transferência do mínimo múltiplo comum de razão para um lugar de esquecimento.
A hipótese de salvação vem, como sempre (que mais nos resta?), da figura do Pai – Mas que Pai? Pai Indy!
Pai singular, spielbergiano (da fase 1, que termina com Hook, quando a figura tutelar passou a ser o próprio e não o seu progenitor, com quem manteve uma relação complicada - digamos que foi fantasma que tardou em desaparecer), que deixa o filho criança conduzir um automóvel pelo meio de Xangai, que o faz saltar de um avião em cima de um…barco, que o leva pela mão para o ‘coração das trevas’, que só lhe desvia o olhar do horror quando já tudo foi mostrado, que corta as amarras de uma ponte onde ele se encontra, com os crocodilos lá em baixo a aguardar pela refeição, enfim, que o conduz aos maiores perigos e para o salvar o faz passar por outros ainda maiores. Pai que, inclusive, muda de lado por breves instantes – não sem grande resistência, rejeição pelo espasmo e pela dor, e devido a circunstâncias ineludíveis. Loucura de que se libertará pelo fogo. Sorry Indy! Desculpa Pai!
“Se me ouvires, vais viver mais tempo!” – Ouve-se frequentemente, do filho para o Pai. Insana, até pelo peculiar contexto, porém magnífica inversão. O Pai não ouve o filho, é óbvio, mas a este é-lhe dada voz racional. Eis a verdade do mundo como a podes receber, e eis a tua voz num mundo que por enquanto te transcende. Não é tudo, dirão, mas é muito – é tanto que é quase tudo.
E pensar que durante metade do filme fomos levados a acreditar que estávamos numa espécie de circo ao ar livre.
Obrigado, Mr. Lucas. Obrigado, Mr. Spielberg.
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